17 de janeiro de 2016

Manual do querer

É incrível como os outros tem um milhão de soluções e ideias para a sua vida enquanto que a deles está uma bagunça. Não vou dizer que nunca fiz isso, e posso jurar que tinha as melhores das intenções quando tentei ajudar alguém, mas tenho evitado dar conselhos ultimamente. Às vezes (na maioria das vezes, eu acho) a gente só quer desabafar e ter um amigo que nos escute e nos entenda, ou ao menos se esforce para nos compreender. Se eu quisesse ajuda, conselhos ou opiniões, voltaria para a terapia – além de a psicóloga conhecer meu histórico e o contexto da situação, jamais seria óbvia a ponto de me decepcionar. Quando estou conversando com alguém quero, unicamente, que essa pessoa me ouça e dê o melhor de si para me abrigar. O que acontece, então, quando você sequer está reclamando e mesmo assim um amontoado não solicitado de conselhos cai sobre si?


Noell Oszvald

Não estou na melhor fase da minha vida. No entanto, ninguém me vê por aí reclamando. Sinto que não estou pronta para determinadas coisas que irão surgir. É um momento de transição pelo qual eu devo passar. Estou tirando o melhor proveito disso por mais que demonstre o contrário (podem até chamar de conformismo, se quiserem). Infelizmente, para quem está do lado de fora o ponto de vista é totalmente diferente.

“Eu acho que você deveria parar de estudar para concurso público e fazer uma faculdade de (insira aqui a primeira profissão que lhe vier à cabeça)”.
“Eu acho que você deveria ir mais à igreja. Essas religiões esquisitas que você segue são (insira aqui qualquer opinião preconceituosa)”.
“Eu acho que você deveria procurar um emprego de verdade. Artesanato não põe comida na mesa”.
“Eu acho que já passou da hora de você ter um bebê. Não presta engravidar aos trinta anos, ou depois”.
“Eu acho que você deveria se casar. Mulher velha solteira é uma merda”.

Enquanto passo noites sem dormir escolhendo os melhores destinos de diversos caminhos da minha vida muita gente não tem a menor dúvida do que eu tenho obrigação de querer. Se acaso um dia um gênio surgisse no meu caminho e concedesse apenas um único desejo, eu adoraria ter essa certeza que os outros tem em relação aos meus problemas. Eu chegaria em alguma universidade, colocaria meus documentos juntamente com o aval do conselho alheio assinado e com firma reconhecida no balcão e solicitaria a ficha de inscrição para o curso de minha escolha. No meu curriculum vitae imprimiria todas as frases emblemáticas, que seriam minha recomendação para a melhor das vagas disponíveis – “o primo de terceiro grau que telefona ocasionalmente para pedir algum favor é da opinião de que a presente candidata deve trabalhar como vendedora de sapatos; favor levar em consideração”.

O que eu quero? Por enquanto, quero descobrir o que eu quero. Isso seria um excelente começo. Não vou encontrar as respostas do dia para a noite, nós sabemos disso, e também não adianta procurar debaixo de toda pedra. Eu não posso experimentar cada coisa, não tenho tempo vital de cancelar um trabalho para iniciar um novo projeto. Sim, eu tenho vinte e oito anos. Em junho de 2016 completarei vinte e nove. E daí? Tenho consciência de que deveria ter feito muitas coisas quando mais jovem, mas eu não tive oportunidades. Estou correndo atrás do tempo perdido e isso é o máximo que posso alcançar. Estou tentando me sobrepor aos problemas emocionais e procuro não me fazer muitas promessas (pelo menos não tão cabeludas como costumava fazer). Eu quero ganhar o meu dinheiro, viver minha vida e machucar o menor número possível de pessoas no trajeto. Eu não sei qual será o meu método, então estou meio que testando vários. Uma hora eu acerto.

Essa é a única certeza que eu tenho.

3 comentários:

Oh, Laila! disse...

Durante uma época trabalhei num lugar que se tornou um tormento, eu não estava satisfeita com os rumos da minha vida, me sentia insignificante quando me comparava profissionalmente com outros colegas, e por mais que eu desabafasse, "os amigos" só sabiam dar conselhos de merda e me mandar parar de reclamar. Acabei me distanciando de todas essas pessoas, me isolei de tudo e entrei em depressão. Tem gente que em vez de ajudar, acaba piorando ainda mais nossos problemas.

Siga a sua vida procurando o que você quer. Pode ser que demore, mas o importante é, como você mesma disse, correr atrás do tempo perdido.

Ana Jähne disse...

que lindo, moça. vivo uma situaçäo de busca parecida com a sua. ouço coisas assim também.
tento apenas respirar fundo e continuar.

que tua busca seja promissora... e que renda bons encontros!

Marcela Fabreti de Oliveira disse...

Ai, eu te entendo perfeitamente D: mas deixa eu começar dizendo que o texto em si ficou sensacional, hahaha. Sem falar também que esses conselheiros da vida alheia também vivem mudando de ideia, né não? Uma hora querem que você entre no curso tal, outra hora que você preste o concurso tal que não tinha nada a ver com o curso anteriormente citado, outra hora acham que você tem que pegar o primeiro emprego que apareça porque o que importa é ganhar dinheiro... E outra hora dizem que você tem que ser artista, porque o bonito mesmo é ser artista, o dinheiro vai depois.
Pessoalmente? As pessoas que só davam pitaco eu ignorei, agora as que tentavam me obrigar a seguir pitaco alheio eu excluí da minha vida, não importando o parentesco. No fim do dia você termina acabada e frustrada por causa desse povo, que da própria vida também não quer nada. Acho mais efetivo varrer tudo isso pra fora de casa.
Sentimentaligrafia

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