16 de fevereiro de 2016

O cata-vento

Quando dei por mim, estava em um funeral num cemitério pequeno há trinta minutos de casa. Esperávamos pela chegada do cortejo enquanto eu tentava processar a informação de que havia um lote específico para bebês logo atrás de mim. “Por que alguém colocaria cata-ventos em um jazigo?”, eu mastigava. “Por que alguém haveria de passar pelo trauma de enterrar um bebê?”, engoli.

Até então, de alguma forma, meu cérebro havia apagado por completo o fato de que estávamos lá pelo meu tio – aquele que morava em uma chácara bonita no fim do mundo; brinquei muito com as filhas dele, minhas primas, quando era mais nova; fui ao casamento de uma delas; a esposa dele faz roupas bonitas; ele sabia pescar; tinha um neto. “Eu ainda não conheço o neto dele”. Pois, estávamos esperando pelo irmão favorito de minha mãe, o mais próximo dela dentre os dez (ou doze, ou treze). Como todos os outros parentes estavam na capela da família, onde fizeram o velório, foi fácil abstrair a situação e ficar ali: parada, em pé, olhos fixos no cata-vento.

Mas aí houve comoção. A movimentação na entrada do cemitério fez com que eu desviasse os olhos para o carro fúnebre e sentenciasse para minha mãe: “O tio chegou”. E que estúpida, não é mesmo? Porque, veja bem, como alguém que acabou de partir pode chegar? O choro da despedida apenas confirmou o que eu suspeitava: ao abrirem o caixão desta vez na capela do cemitério, não era ele. O meu tio havia ido embora. Ninguém sabe para onde. O que chegou foi uma caixa de madeira repleta de flores e... sim, tinha alguém dentro. Não, não era alguém. Quero dizer, eu tive a impressão de tê-lo conhecido em alguma etapa da minha vida. Era familiar e ao mesmo tempo um completo estranho. Não podia ser meu tio porque ele, de algum jeito, estava vivo e jamais poderia morrer. No entanto, estava morto e precisávamos enterrá-lo, pois é assim que as coisas são feitas.

Saí da capela saturada do choro dos outros e do meu. Fui para o jazigo onde havia o cata-vento girando devagarinho e me veio qualquer lei da Física à cabeça. Daí para frente eu me lembro de pouco: me lembro de ter ficado com raiva da pessoa que colocou o cata-vento sobre um bebê enterrado; lembro de ter segurado o ímpeto de arrancá-lo da terra e jogá-lo para longe; e então me avisaram que meu tio estava indo e eu perguntei para onde, mas só recebi um tapinha nas costas como resposta. Lembro de ter dado as costas para o cata-vento com a nítida sensação de que aquilo estava errado – cemitério não é lugar para cata-ventos. “Cemitério não é lugar para crianças”, tive vontade de dizer para uma prima que trouxe a filha pequena e num susto me dei conta: eu estava num lote específico para crianças, brigando com um maldito cata-vento.

Enterrei meu tio. Bom, deixei que o enfiassem em uma tumba fria de lajotas cuja inscrição indica que devo visitá-lo ali a partir de agora e me contentar com isso. Engole o choro. Minhas primas estavam inconsoláveis. Minha tia, absorta. Minha mãe se apoiava em mim, prestes a afundar. Eu não orei o Ave-Maria porque não sou católica. Lembro que chorei. Lembro que sorri também, pois se passou pela minha cabeça que meu tio morreria de medo daquilo se estivesse vivo. Não é engraçado? Não, não é. Eu não deveria ter achado graça, desculpa. Só me restaram flashes de memória após o fim de tudo. Abraços, lágrimas, “nos vemos outra hora, a gente se fala, passe lá em casa para um café, há quanto tempo não nos vemos, como vai seu pai, meus sentimentos, força”. Não faço ideia. As lágrimas. Mas o cata-vento. A criança do cata-vento. O meu tio.

A injustiça.

1 comentários:

Oh, Laila! disse...

Me fez pensar em quantas crianças estão sendo enterradas ultimamente, e por causa de injustiças. Sinto muito pelo seu tio. Beijos

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