27 de setembro de 2017

É uma pena não existirmos

Existe um lugar em nossas vidas onde o futuro é uma lembrança boa. No passado, existe um presente. O tempo – esta chama que nos arde – não existe. O que existe, de fato e profundo, é o instante – este piscar de olhos que não acontece, pois não há tempo. O momento não há, pois sem tempo. Não vivemos porque não houve tempo. Isso posto, é preciso que você compreenda a efemeridade deste texto, pois no profundo e no fato este texto não existiu.

Há quatorze anos atrás, existia uma versão de mim que hoje me é uma completa desconhecida. É, a gente morre todo o dia. O que ficou foram as pegadas no caminho, que não encaixam mais nos meus pés. Eu nunca fui aquela garota. Eu nunca tive dezesseis anos de idade. Eu nasci assim, aos trinta anos. Aquela em 2003, quem é? Nunca ouvi falar. Parece estar triste e acuada. Ela até me lembra alguém que conheço, mas não: 2003 é apenas uma miragem.

Mas mesmo assim, apesar do fato e do profundo, eu estive. Eu estive, ainda que minhas memórias do futuro não acreditem. Sim, estive. À você, que está com quarenta, cinquenta, sessenta anos... que não me conhecerá aos trinta porque já terei morrido, não se engane: você esteve. Eu gostaria que o tempo existisse para que você tivesse a oportunidade de apreciar. 


E na inexistência ninguém saberá que eu lhe abracei. No fato e no profundo, nenhuma marca de mim ficará em você. E sua marca em mim não terá tempo de marcar. Mas eu estive. Contra todas as probabilidades. Um dia, quem sabe na ingratidão da morte, a gente se reencontre no silêncio de uma prece. Sim, é assustador não existirmos, afinal, na imensidão do fato e do profundo. Mas valeu muito a pena tentar!

Não há tempo que acolha nossa eternidade.
Obrigada por tudo.

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