6 de outubro de 2017

O estado das coisas

Não, você não está tendo miragens.

E também não está vendo promessas, portanto mantenha as expectativas baixas. O que acontece é que estou, naturalmente, muito inspirada e talvez, quem sabe, seja hora da boa filha retornar. Eu sei que mais ninguém lê blogs hoje em dia, mas se eu não escrever para mim, afinal de contas, para quem diabos estarei escrevendo?


Bom, tenho muitas coisas para dizer, mas na verdade apenas uma importa: existe vida após os trinta anos. Sim, é incrível! Estou viva, ativa, pensante e respirando sem ajuda de aparelhos. Confesso que não acreditava na existência depois da “passagem”. Estava desgostosa, preocupada, comprando sapatos ortopédicos. Agora, mais leve, vejo que uma porta se fechou, sem dúvidas, mas meus problemas no ciático ainda não me impedem de pular a janela.

Muita coisa aconteceu em minha ausência ao mesmo tempo em que absolutamente nada aconteceu. A minha vida continua sendo uma lata de lixo, mas veja bem, uma lata de lixo reciclável porque me dar ao respeito é algo que aprendi à duras penas. Eu continuo a mesma, apesar de ter (sido arrancada à força) saído da casa dos vinte anos. Foi-se a época em que eu era jovem e tinha o mundo sob os pés.

Eu sei que precisamos conversar seriamente sobre o Bonjour Circus, mas este não é o melhor momento. Desconfio de que não haja melhor momento, para ser sincera. Sou do tipo que prefere fazer de conta que nada aconteceu e seguir o trio elétrico. Eu precisava de um tempo, vocês tinham que pular do ninho para alçar voos mais altos e é isso aí. A vida é, apesar de todos nós.

Vou postar regularmente? Não vou, mas estou nas redondezas. Sim, sou eu ali usando penas de pombo na cabeça e cantando In the Shadows com um dedo levantado. Se todo mundo agir naturalmente, não me cobrar nada nem interromper minhas divagações acredito que ficaremos bem. Afinal, família é para essas coisas. O circo vai, minha gente, e sempre volta.

27 de setembro de 2017

É uma pena não existirmos

Existe um lugar em nossas vidas onde o futuro é uma lembrança boa. No passado, existe um presente. O tempo – esta chama que nos arde – não existe. O que existe, de fato e profundo, é o instante – este piscar de olhos que não acontece, pois não há tempo. O momento não há, pois sem tempo. Não vivemos porque não houve tempo. Isso posto, é preciso que você compreenda a efemeridade deste texto, pois no profundo e no fato este texto não existiu.

Há quatorze anos atrás, existia uma versão de mim que hoje me é uma completa desconhecida. É, a gente morre todo o dia. O que ficou foram as pegadas no caminho, que não encaixam mais nos meus pés. Eu nunca fui aquela garota. Eu nunca tive dezesseis anos de idade. Eu nasci assim, aos trinta anos. Aquela em 2003, quem é? Nunca ouvi falar. Parece estar triste e acuada. Ela até me lembra alguém que conheço, mas não: 2003 é apenas uma miragem.

Mas mesmo assim, apesar do fato e do profundo, eu estive. Eu estive, ainda que minhas memórias do futuro não acreditem. Sim, estive. À você, que está com quarenta, cinquenta, sessenta anos... que não me conhecerá aos trinta porque já terei morrido, não se engane: você esteve. Eu gostaria que o tempo existisse para que você tivesse a oportunidade de apreciar. 


E na inexistência ninguém saberá que eu lhe abracei. No fato e no profundo, nenhuma marca de mim ficará em você. E sua marca em mim não terá tempo de marcar. Mas eu estive. Contra todas as probabilidades. Um dia, quem sabe na ingratidão da morte, a gente se reencontre no silêncio de uma prece. Sim, é assustador não existirmos, afinal, na imensidão do fato e do profundo. Mas valeu muito a pena tentar!

Não há tempo que acolha nossa eternidade.
Obrigada por tudo.